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SONHAR
O PÓS-GUERRA, EM PLENA GUERRA
Por
José Adelino Maltez
Professor
Catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais
e Políticas (ISCSP) - Portugal
Doutor e agregado em ciência política.
Professor Catedrático convidado da Faculdade de Direito de
Lisboa
Director do Centro de Estudos do Pensamento Político (ISCSP)
http://maltez.home.sapo.pt/pinicial.htm
Ao contrário
do que proclamam alguns slogans das manifestações
pacifistas, o presente conflito é bem mais complexo do que
um jogo de forças visando o controlo do petróleo do
Médio Oriente. A guerra em curso é mera consequência
de uma sucessão de erros teóricos e de falsas doutrinas
que enchem os manuais de formação dos pretensos estadistas
do nosso tempo, onde algumas universidades continuam a ser meros
instrumentos da carnificina.
Mesmo em Portugal,
que não declarou guerra ao Iraque, assistimos ao triste espectáculo
de oficiais das forças armadas no activo e de directores-gerais,
em pleno exercício das suas funções, surgirem,
quotidianamente, nas televisões, com farda e condecorações,
assumindo posições comprometidas com um dos contendores,
certamente com ordens expressas dos respectivos ministros, os mesmos
que, em jantaradas dos respectivos partidos, fazem comunicações
de Estado e declarações de guerra psicológica.
Quando o nosso Primeiro-Ministro, em plenos Passos Perdidos, desafiado
para comentar as intervenções de João Paulo
II, confessou, em linguagem aparentemente weberiana, que, enquanto
indivíduo, concordava com o Papa, em nome da ética
da convicção, mas que, como estadista, o norteava
uma outra ética, a da responsabilidade, assumia o essencial
das teses neomaquiavélicas, segundo as quais entre os Estados
não vigoram as mesmas regras do que entre os indivíduos
sujeitos aos Estados.
Por outras palavras,
Durão Barroso proclamou a causa profunda da presente guerra,
a falsa ideia que move Bush e Rumsfeld, a serôdia teoria da
Razão de Estado que também impregnou a conduta de
Salazar. Porque, segundo estas teses, se, dentro dos Estados, vigora
o princípio do monopólio da força pública
legítima, entre os Estados existiria uma mera lei da selva,
um simples regime de vindicta privada, onde não haveria princípio
supra-estadual capaz de estabelecer a justiça. Para estas
teorias, todos os Estados são lobos dos outros Estados, face
à não existência de um direito universal, capaz
de servir de fundamento e de limite do poder, pois vigoraria apenas
a força do mais forte, daquele que é capaz de vencer,
mesmo que não tenha razão.
Para nós,
outra é a perspectiva. Dizemos que a lei está dependente
do direito e que, acima do direito, está sempre a justiça,
entendida como aquele valor supremo que também comandaria
a política.
Com efeito,
somos um desses velhos crentes na ideia política greco-romana,
teorizada por Aristóteles e Cícero, retomada por São
Tomás de Aquino Kant e, portanto, continuamos, teimosamente,
a rejeitar os falsos pressupostos em que assentam os realistas dos
tempos que correm.
A política
não se reduz ao espaço da mera conquista e manutenção
do poder, à relação entre um que manda e outro
que obedece a uma força irresistível. A verdadeira
política, porque é uma mistura de poder e de liberdade,
tem que derivar da autoridade e que assentar na legitimidade!
Rejeitamos,
por isso, providencialistas e teocráticos, esses filhos do
maniqueísmo de Santo Agostinho, que tanto vão do fundamentalismo
islâmico à sanha puritana do protestantismo. Abominamos
a faceta inquisitorial do maquiavelismo da Razão de Estado,
mesmo a dos nossos brandos costumes, ainda que recoberta com a água
benta da fradalhada ou com o higiénico da casta banco-burocrática.
Essa falsa santa aliança que continua a subsidiar ou a patrocinar
certas escolas portuguesas, donde se têm recrutado, sem ser
por acaso, a maioria dos comentadores de guerra, de acordo com esses
ocultos fazedores de um "agenda setting" que não
tem servido os interesses portugueses.
Também
não somos um desses pacifistas que tentam confundir a paz
com uma guerra contra a guerra. Acreditamos que o direito é
superior à paz, porque a mesma paz tem que ser uma consequência
da justiça. Mas desde que esta, insista-se, tenha, na sua
directa dependência, tanto o direito, enquanto anti-razão
ao serviço da razão, como a política, enquanto
sinónimo de democracia.
De uma política,
onde a dialéctica entre o poder e a liberdade permita um
Estado de Direito, onde o Estado pode estar acima do cidadão,
mas onde o homem está sempre acima do Estado. Porque nada
do que é humano nos pode ser alheio. Porque cada homem é
sempre uma coisa sagrada, um fim em si mesmo, um ser que nunca que
se repete.
A guerra é
sempre um "juristício", uma suspensão do
direito, o decisionismo absolutista surgido de um estado de excepção,
onde a morte comanda a vida e o fogo abafa o sonho. Está
para o direito, assim como a ditadura está para a política.
Por isso não se compreende que George W. Bush, que tirou
os Estados Unidos do Tribunal Internacional, entenda o direito como
mero instrumento da superpotência que gere, principalmente,
quando ameaça condenar os adversários como criminosos
de guerra, ele que não quis sujeitar-se à definição
universal de crime de guerra e ao tribunal independente que o vai
julgar.
Por isso compreendo
um dos dramas deste conflito, onde, de um lado, temos soldados profissionais,
ao serviço de democracias e Estados de Direito, e, do outro,
um povo inteiro, em armas, comandado totalitariamente, em defesa
de uma crença e da autonomia de uma comunidade política.
Porque os regimes
autoritários e totalitários podem ser maioritariamente
apoiados e, no caso dos respectivos territórios serem invadidos
por estrangeiros, são capazes de mobilizar os próprios
opositores internos, em nome da defesa nacional.
Hoje, Portugal,
enredado neste nem paz nem guerra, onde a opinião pública
continua rigorosamente controlada tanto pelos adeptos de Junot como
pelos partidários de Wellesley, corremos o risco de deixarmos
de ter um ministro dos negócios estrangeiros de Portugal
e passarmos a ser geridos por vários ministros dos estrangeiros
em Portugal.
Não me
preocupa o anti-americanismo epidérmico que se tem manifestado,
preocupa-se alguns laivos de anti-portuguesismo que têm ressaltado
entre certas pretensas elites. Porque, para os portugueses velhos
crentes, que se consideram herdeiros daquelas, saudades de futuro
que marcam o nosso universalismo, sermos adeptos de uma visão
transatlântica sempre implicou uma perspectiva lusíada
de um Atlântico a caminho do Sul, de oceano moreno que nos
deu liberdade, sonho e esfera armilar. Por isso, é que, em
vez de uma cimeira das Lajes, talvez fosse mais útil e realista,
a aventura e o pragmatismo de uma cimeira lusófona, talvez
em Cabo Verde, capaz de secundar os esforços de um João
Paulo II, para um grande encontro de culturas.
Em plena guerra,
importa sonhar num pós-guerra mais justo, onde não
tenha que haver revolta de escravos, nem a eterna espiral da violência,
onde permaneçam estados de violência, susceptíveis
de provocarem actos de violência.
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