|
O
CAPITALISMO DE LENIN E A FÁBULA DA RÚSSIA ATUAL
Rodolfo Milhomem*
''Se Stalin
revira-se em seu túmulo, Lênin respira vivo em seu
mausoléu, mas Marx, esse dá risadas de suas teorias.
A Rússia do presente é um encouraçado lento
e enferrujado, a práxis libertadora com a liberdade do mercado''
Ressurge um
futuro nebuloso, negro, controlado por mega-corporações,
grandes conglomerados econômicos de exploração
humana, só se importam com o sangue, o petróleo e
o lucro supra-nacional.
As
democracias do ocidente, meros formalismos sociais, são apenas
marionetes do capital, se rendem ao dinheiro e a corrupção.
Os Estados perderam sua identidade, o mundo se encontra isolado,
a nova Rússia, que ressurgira da cinzas do socialismo, agora
é o novo gigante capitalista.
Esse
futuro pode ser uma mera ficção cientifica, como também
uma realidade próxima até demais. A Rússia
se mostra como um grande país, por sua tradição
histórica ou pelo menos por seu potencial internacional.
Ela foi, e continua sendo, um grande ator das relações
internacionais, mesmo com a perda de todo seu poder socialista,
ou do sucateamento de seu aparelho estatal.
A
adaptação a uma nova forma de produção
é lenta, pois todo seu substrato econômico e valorático
se encontra fundamentado no socialismo. A sociedade industrial,
característica intrínseca ao capitalismo e ao socialismo
soviético, demonstra toda a rede produtiva que a Rússia
construiu ao longo do regime, sendo o seu maior desafio atual sua
redefinição no mercado mundial, a entrada na competitividade
do liberalismo.
Certo
é que grande parte da estrutura produtiva Russa é
composta por tecnologias já superadas: agricultura oligárquica,
indústrias de base, estatais ou não; mas que ainda
são gigantes lentos.Há o fato do entendimento e enquadramento
teórico e sociológico da nova economia, pois a estrutura
produtiva Russa era voltada à produtividade, não simplesmente
para o mercado de consumo, desta maneira, toda a economia perde
sua funcionalidade, pois é necessário produzir muito
e com qualidade.
A
riqueza do país, concentrada na mão de uma elite do
Kremlin, formou sérias distorções sociais.
Após sessenta anos de regime socialista observamos a riqueza
da grande Rússia concentrada nas mãos dos burocratas,
das oligarquias, da máfia, e dos políticos corruptos.
Há personagens privados na Rússia que detém
mais poder que um influente político do Kremlin, e Putin
governa com todos eles.
A
burocracia Russa, muito bem prevista e explicada por Kant, retirou
a alma do sistema socialista.O segredo de Estado e a lentidão
dos processos de inclusão e revolução social
retira toda liberdade do regime, toda mobilidade Estatal que um
estado socialista tinha de ter até mais que um capitalista,
sem ela o estado se torna petrificado, morto, e aqueles que controlam
esse sistema burocrático se beneficiavam desse status quo.
Após
a queda do regime, esses mesmo burocratas continuaram no poder,
pois não houve uma descentralização dos serviços
estatais. Ela acontece mas é lenta, e não houve uma
transição de poder. A elite do Kremlin continua ainda
como elite, corrupta, suportada pelas máfias, pelos burocratas
e pelos grandes empresários.A Rússia precisa ainda
de maturidade democrática, sem ela, não haverá
um sistema eleitoral neutro, um sistema político sem vícios
estruturais, capaz de corresponder aos anseios da população.
Voltando
à cena política, observamos também as distorções
que a mudança do regime provocou na economia, o controle
de conglomerados econômicos ocidentais privados, que agora
orbitam ao redor da política é um exemplo.A sangria
da economia planificada, o colapso do sistema produtivo e armamentista,
desembocou na moratória de 98. Sem dinheiro para pagar o
ocidente, a Rússia foi obrigada a declarar moratória
e cair em profunda crise, o rubro agora não servia nem como
papel.
Recentemente
vimos o rei do petróleo sendo preso detido e algemado, foi
levado para prisão acusado por ter ligações
com a máfia e com negócios escusos. Ora, é
claro o fato de que se trata de uma disputa política, o poder
do dinheiro ultrapassa toda e qualquer tipo de instituição,
e a Rússia é o grande exemplo.O rei, sem ser político,
tem mais poder que o presidente do País, provavelmente ele
era um dos adversários de Putin na eleição
deste ano.
Outro
fator importante é a máfia russa, surgida no seio
do sistema socialista como meio ilegal de se conseguir um produto,
ou bem de consumo que não era distribuído ou era de
má qualidade. Assim os cidadãos procuravam a máfia
para comprar um disco do Elvis, ou até mesmo um sapato fora
da moda comunista.Controlando desde o comercio ilegal até
o legal, pondo em venda armas atômicas para grupos terroristas,
participando dos grandes cartéis de drogas e armas, lavando
dinheiro do mundo inteiro, a Máfia hoje controla o cenário
político da Rússia. Após a queda do muro, ela
tomou grandes proporções e ganhou ainda mais poder
dentro do Kremlin, passaram a ser os capitalistas do presente.
++++Com
um shopping em plena praça vermelha, observamos a Rússia
do presente, a transição de dois sistemas produtivos
completamente diferentes.O regime socialista chegou ao colapso por
não suportar a corrupção em sua base estrutural,
os gastos excessivos na industria de armas, e pela supressão
da liberdade, fato esse que demonstra a essência do ser humano,
''a exploração do homem pelo homem, sem sua liberdade,
faz decair impérios e seus imperadores''.
Diferente
da Republica Popular da China, que ainda mantém o regime
socialista, mas de uma maneira mista com a presença de uma
economia de mercados com ingerência de capitais estrangeiros,
com suas famosas zonas de exportação, principalmente
pelas cidades comerciais de Hong-Kong e Xangai, demonstrando o gigante
capitalista que é a China atual . A Rússia sofre com
a transição, na China não houve realmente uma
transição de sistemas, mas uma adequação,
mas o fato é que a revolução bolchevique de
1917 foi cuspida, rasgada e esquecida.
Mas
há ainda o desejo das alas mais conservadoras do Kremlin
de se retornar ao socialismo, o sonho da reconstrução
da Grande Rússia trouxe um aspecto fascista aos políticos
e para o povo que tem esse desejo. Retornar com todo o custo necessário
para o pólo ativo do poder internacional, esse sentimento
ainda habita com força em alguns corações Russos.
A Rússia nunca perderá seu valor nas Relações
Internacionais, será sempre um ator de peso, pelo menos neste
sistema vigente. Além de ser membro permanente do Conselho
de Segurança, ainda tem ambições imperialistas
no leste europeu, e ainda influencia a política desse países,
é um dos grandes pólos comerciais do mundo, e ainda
possui um considerável exército.
O
pib russo em comparação caiu de 3.180 bilhões
de dólares em 1991, para 590 bilhões de dólares
em 97, fruto do colapso do socialismo. Se tornou uma economia sem
valor no mercado internacional, resultado das políticas de
reformulação de Gorbachev. Com a abertura do mercado,
a Rússia agora não vendia seus produtos aos paises
aliados, pois o vendiam a baixo preço, após a abertura,
não houve a necessidade desses paises continuarem comprando
da Rússia, assim houve uma baixa grande nos produtos primários
exportados pela União Soviética, que eram os únicos
que iam para o Ocidente.
Com
a eleição do presidente Putin, a Rússia teve
um grande desenvolvimento de seu comércio. Com a modernização
de algumas indústrias e com o preço do petróleo
am alta, houve assim uma recuperação do pib russo
que fora fortemente atingido pela moratória de Yeltsin, apenas
um aspecto digamos histórico conjuntural. Putin ainda terá
grandes desafios pela frente, pois governa com varias alas da política
Russa, com a oligarquia, com os reis da mídia, com os liberalistas
russos, com a máfia e etc.
A
desvalorização do câmbio de 6 para 24 rublos
por dólar, junto com as altas tarifas alfandegárias
e os baixos preços locais do gás e do petróleo
(mantidos pelo Estado a 15% e 30% do preço internacional,
respectivamente), permitiram à indústria russa recuperar
competitividade. Aliado à alta do gás e do petróleo
no mercado internacional e a percepção de que o país
voltava a ter um projeto nacional permitiu ao PIB crescer a uma
taxa média de 6,4% ao ano de 1998 a 2002. Seu superávit
comercial tornou-se o segundo maior do mundo (depois do Japão)
e permitiu ao país acumular US$ 64,3 bilhões em divisas
(valor equivalente a 51,5% da dívida externa), apesar de
fortes restrições aos investimentos externos.
O
estado autoritário e nacionalista que se formou no inicio
do século XXI têm a Europa como principal parceiro
comercial, 38% do comércio exterior é voltado para
União Européia, com a qual mantém uma relação
diplomática amistosa. Mas muitas vezes, a Rússia age
com ambigüidade, se une aos paises do G-21 contra os subsídios
agrícolas dos EUA e EU e contra as políticas protecionistas
destes países aos quais também se opõe em sua
ambição de reafirmar sua influência sobre as
ex-repúblicas soviéticas, da Ucrânia ao Usbequistão.
A
Rússia também mantém uma relação
estratégica com a China - sua maior parceira comercial fora
da Europa - fornecendo-lhe equipamentos nucleares e armamentos avançados.
A Índia, os países árabes e o Irã também
continuam grandes clientes nessa área, para desgosto dos
EUA. Pode-se pensar que as armas russas - 5% de suas exportações
- seriam obsoletas demais para desafiar as norte-americanas, mas
não é bem assim. O computador que controla o sistema
antiaéreo S-300 funciona com fita magnética, ocupa
dois metros de parede e um barulhento gerador a diesel, mas é
mais eficaz que o Patriot norte-americano. O torpedo Shkval é
cinco vezes mais veloz que seus equivalentes norte-americanos. A
Rússia continua a ter excelentes engenheiros e, na guerra
como na economia, informática não é tudo.
Neste
mundo atual pós muro de Berlim, observamos a transferência
da esfera de poder, vemos nascer uma União Européia
forte e grande, agora com vários paises do leste europeu,
antes área de influência Russa.Esses países
também fazem parte da atual OTAM, na qual até a Rússia
também dá apoio político, logístico
e estratégico.Mas como sabemos a Rússia também
é européia, e por que não um dia ela figurar
entre os membros da União de Masstrich, que é um desejo
claro da atual Rússia.
Especulações
a parte, saberemos só pelo futuro, que a grande Rússia
dos czares, de Ivan, de Catarina, de Lênin e de Stalin, continuará
sendo grande em suas dimensões e no seu poder. A instabilidade
mundial criada pelo unilateralismo americano deu a Rússia
condições ideais para portar-se como peso na balança
do poder mundial, e essa será a nova Rússia, conservando
suas oligarquias, com seu capitalismo nacionalista e autoritário.
Rodolfo
Milhomem de Sousa
Bacharelando em direito pela Universidade Católica de Goiás
e bacharelando em história pela Universidade Federal de Goiás.
Bibliografia
O Mundo Hoje/1993, Almanaque Abril 1998, The Economist
Baudrillard, Jean 1997 Tela total/mito: ironias da era do virtual
e da imagem. Porto Alegre, Sulina.
Derrida, Jacques 1994 Espectros de Marx. Rio de Janeiro, Relume-Dumará.
Giddens, Anthony 1995 Para além da esquerda e da direita
São Paulo, Editora Unesp.
|